Palavras...

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sábado, 29 de agosto de 2015

Notas de uma jornada: EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO de Marcel Proust (V.1)

Por que subir o Everest?


Monsieur Proust

 
Sempre que via ou lia a notícia sobre algum alpinista que havia chegado ao topo do Everest eu me perguntava:
 
- Por que alguém, em sã consciência, se arrisca a fazer uma coisa destas?
 
- O que será que falta a estas pessoas para que sejam impulsionadas à uma tarefa tão difícil?
 
Afinal, ninguém é OBRIGADO a fazer a subida. Então, por que?
 
Não sei como esta sensação chegou a mim, mas depois que terminei de ler NO CAMINHO DE SWANN eu comecei a entender - um pouco - os alpinistas "malucos" que chegam lá no teto do mundo.
 
Já ouvi muita gente falar que para conquistar o Everest não é apenas necessário o preparo físico (que sim, é bastante importante para o feito) mas acima de tudo a disposição mental e a necessidade interior de fazer a escalada.
 
Ouso afirmar que para ler os sete volumes de EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO mais do que ser leitor experiente e capacitado, é fundamental que você esteja em sintonia com o que Proust tem a transmitir em sua obra.
 
É muito mais uma questão de vibe do que de intelecto.
 
Ao concluir o primeiro trecho, venho aqui dar meu testemunho de que intenciono continuar a jornada, e afirmar que uma vez começada, depois de você pegar o gosto (mesmo que vá bem devagarzinho), fica muito difícil desistir e voltar do meio do caminho.
 
 
 
 
EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO
 
VOLUME 1
 
NO CAMINHO DE SWANN
 
Autor: Marcel Proust
 
Editoda Globo / Biblioteca Azul
 
558 páginas 
 
 
 
 
 
 
 
 
O primeiro volume é dividido em 3 capítulos.
 
São capítulos longos, com parágrafos enormes, cheios de ideias intercaladas que dificultam a leitura até você se acostumar. Mas você se acostuma e começa a gostar do que está presenciando, e começa a sentir - muito mais do que entender - o mundo que está sendo recriado.
 
O narrador nos conta como se sentia triste e vazio com a vida que levava. Um dia, a partir de uma memória involuntária, despertada pelo sabor de um bolinho (madalena) dissolvido no chá, ele começa a sentir a profunda necessidade de escrever suas lembranças. No primeiro momento, estas lembranças parecem que escaparão a sua capacidade de registrá-las, mas ele se esforça, as persegue e, como sabemos, tem amplo sucesso na empreitada.
 
"Em breve, maquinalmente, acabrunhado com aquele triste dia e a perspectiva de mais um dia  tão sombrio como o primeiro, levei aos lábios uma colherada de chá onde deixava amolecer uma pedaço de madalena. Mas no mesmo instante, em que aquele gole, de envolta com as migalhas de bolo, tocou meu paladar, estremeci, atento ao que se passava de extraordinário em mim. Invadira-me um prazer delicioso, isolado, sem noção de sua causa. Esse prazer logo me tornara indiferente às vicissitudes da vida, inofensivos seus desastres, ilusória sua brevidade, tal como o faz o amor, enchendo-me de uma preciosa essência: ou, antes, essa essência não estava em mim, era eu mesmo."   
 
Ninguém é OBRIGADO a ler as 1.267.069 palavras de EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO, mas se você sentir em seu coração a vontade de empreender por estes caminhos, vá sem medo e veja se lhe dizem alguma coisa.
 
Talvez agora não engate, talvez demore a pegar o ritmo, talvez você desista. Talvez...
 
Mas é só lembrar que, como a montanha lá nos Himalaias estará sempre a espera dos alpinistas "malucos", o texto de Proust estará sempre por aqui, esperando leitores dispostos a entrar em sintonia com esta bela obra.     
 
Um beijos e ótimas leituras.  

4 comentários:

  1. Já subi a este Evereste da literatura, gostei muito, nem toda a escalada foi fácil, mesmo assim tanto da madalena no primeiro volume ao degrau no último foi uma obra muito marcante e valeu a pena.

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    1. Quero muito seguir seu exemplo Carlos, e chegar lá no topo...

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  2. Que show de Literatura!!!!
    Conheço o autor e algumas obras magníficas!
    Boa dica!
    Bjos amiga
    http://www.elianedelacerda.com

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