Palavras...

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quinta-feira, 29 de junho de 2017

A LINGUAGEM DO AMOR de Lola Salgado.

Ah o Amor...

Amazon (em e-book para KINDLE), 9163 KB / 660 páginas

"Aos 17 anos, a única coisa que realmente importa para Rebecca é se formar com louvor na faculdade de Letras para, no futuro, realizar o sonho de trabalhar em uma grande editora, perto de todos os livros de fantasia incríveis com os quais cresceu. Morando em uma nova cidade e longe da proteção dos avós, por quem foi criada, ela lutará para não seguir os passos errantes da mãe. Estaria tudo dentro dos conformes se não fosse os murmurinhos percorrendo os corredores da universidade: Adônis, o novo professor de Produção Textual, é um verdadeiro carrasco. Rude, solitário e mal-humorado, ele tenta, na verdade, fugir dos fantasmas do passado."


  Senhoras e Senhores, alguém tem alguma dúvida de que
Rebecca e Adônis terminarão juntos? 

  Pois é... 

  Dúvida ZERO! 

  Mas ouso dizer que isto não tem importância (ou tem pouquíssima) pois A LINGUAGEM DO AMOR é uma história basicamente esteada em personagens, e são elas, muito mais que o enredo, as responsáveis por nos manter ligados ao livro do começo ao fim. 

  É bem verdade que algumas situações podem parecer um pouco arrastadas ou repetitivas, contudo, de modo geral, a história anda bem e os diálogos soam naturais e dinâmicos. O casal de protagonista tem uma boa química e o elenco de apoio é divertido.

  Ah! E é reconfortante saber que amores e arrebatamentos românticos ainda são possíveis, mesmo em um cenário livre de milionários, carros de luxo e afins. 

  A jovem autora é dona de uma escrita fluida, bem conectada e, na minha opinião, qualquer pessoa que consiga manter um mínimo de nexo causal por mais de 600 páginas é digna de nota. Merece meu respeito. 

  Mas, se um conselho é permitido, eu diria para ela evitar, em obras futuras, o excesso de citações e expressões do tipo "Pelas flechas de Fulana...", ou "Pelo anel de Sicrano...". Vejam bem, não são coisas fundamentalmente erradas, porém destoam pelo uso em demasia. 

  No mais, acredito que Lola Salgado tem potencial e, obviamente, a energia necessária para continuar produzindo e aprimorando seu texto. 


  - Well done!



Um beijo e ótimas leituras.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Eu recomendo: A FILHA PERDIDA de Elena Ferrante

"Eu queria está pronta para lidar com os pedidos repentinos de ajuda, temia que me acusassem de ser como eu de fato era: distraída ou ausente, absorta em mim mesma." 

Intrínseca, 174 páginas
   
   Leda é uma professora universitária de 48 anos. Quando suas duas filhas, já adultas, resolvem se mudar para morar com o pai no Canadá ela sente uma estranha leveza. 


"Senti-me milagrosamente desvinculada, como se um trabalho difícil, enfim concluído, não fosse mais um peso sobre os meus ombros."

   Chegam as férias de verão e ela resolve viajar ao litoral do sul da Itália para - por assim dizer - recarregar as baterias e preparar as aulas do novo semestre. Em suas visitas diárias à praia, Leda começa a prestar atenção em uma barulhenta família napolitana. Duas figuras em especial, uma jovem mãe e sua filhinha, a deixam tão impressionada que a observação começa a tomar contornos obsessivos. 

"Um dia levantei os olhos e as vi pela primeira vez: a mulher extremamente jovem e a menina. Estavam voltando do mar em direção do guarda-sol; ela, com não mais do que vinte anos, a cabeça baixa, e a garotinha, de três ou quatro anos, fitando-a de baixo, encantada, enquanto segurava uma boneca da mesma maneira que uma mãe carrega uma criança de colo."

  É a partir daí que a protagonista (também narradora da história) relembra seu passado, revelando, pouco a pouco, nuances profundas de sua natureza. Leda é uma pessoa difícil, portanto uma personagem fascinante, e Elena Ferrante uma escritora primorosa, que cativa nossa atenção desde as primeiras linhas.

Um beijo e ótimas leituras.

sábado, 3 de junho de 2017

Música: JUNHO de Alceu Valença

Pois o mês começou doido, gris e bolorento... mas vai melhorar.





JUNHO

Eu sei que é junho, o doido e gris seteiro
Com seu capuz escuro e bolorento
As setas que passaram com o vento
Zunindo pela noite, no telheiro

Eu sei que é junho!

Eu sei que é junho, esse relógio lento
Esse punhal de lesma, esse ponteiro,
Esse morcego em volta do candeeiro
E o chumbo de um velho pensamento

Eu sei que é junho, o barro dessas horas
O berro desses céus, ai, de anti-auroras
E essas cisternas, sombra, cinza, sul

E esses aquários fundos, cristalinos
Onde vão se afogar mudos meninos
Entre peixinhos de geleia azul.


Alceu Valença


terça-feira, 16 de maio de 2017

Poema: ALMA ERRADA de Mario Quitana.

Tem coisa que só a poesia expressa...





    ALMA ERRADA

Há coisas que a minha alma, já tão mortificada, não admite:
assistir novelas de TV
ouvir música Pop
um filme apenas de corridas de automóvel
uma corrida de automóvel num filme
um livro de páginas ligadas
porque, sendo bom, a gente abre sofregamente a dedo:
espátulas não há... e quem é que hoje faz questão de virgindades...
E quando minha alma estraçalhada a todo instante pelos telefones
fugir desesperada
me deixará aqui,
ouvindo o que todos ouvem, bebendo o que todos bebem,
comendo o que todos comem.
A estes, a falta de alma não incomoda. 
(Desconfio até que minha pobre alma fora destinada ao habitante de outro mundo).
E ligarei o rádio a todo o volume,
gritarei como um possesso nas partidas de futebol,
seguirei, irresistivelmente, o desfilar das grandes paradas do Exército.
E apenas sentirei, uma vez que outra,
a vaga nostalgia de não sei que mundo perdido...

Mario Quintana

terça-feira, 9 de maio de 2017

Contos de Machado que recomendo (#8): AS BODAS DE LUÍS DUARTE

Carregado de referências, no mínimo curiosas, este conto tem uma forte atmosfera de comédia de situações.



   AS BODAS DE LUÍS DUARTE que está no livro Histórias da Meia-noite, começa com a descrição dos preparativos para o grande evento. José Lemos - pai da noiva - responsável pelo o arranjo da da sala, havia comprado no dia anterior duas gravuras para ornar as paredes do ambiente:

GRAVURA 1:

A MORTE DE SARDANAPALO - Delacroix, 1827

* Sardanapalo foi (segundo uma rápida pesquisa) o ultimo rei assírio que, para não cair nas mão do inimigo resolveu suicidar-se. Para isso mandou construir uma enorme pira funerária, na qual jogou todas suas posses (cito: ouro, prata, trajes reais, eunucos e concubinas) seguindo ele o mesmo caminho na sequencia. O detalhe bizarro da história é que parece que Sardanapalo esperou para certificar-se de que tudo e todos estavam devidamente queimados para só então pular no fogo.

- C R E E P Y !!!


GRAVURA 2:  

EXECUÇÃO DE MARIA STUART - Vanutelli, 1861

** Maria, rainha dos escoceses, foi executada por traição em 08 de fevereiro de 1587.

  Por que cargas d´água alguém escolheria este tipo de adorno para um dia de núpcias? A justificativa de José Lemos tem lógica para ele, mas para o leitor deixa uma sensação de preságio tragicômico sobre o futuro do casal.

"Houve alguma luta entre ele e a mulher a respeito da colocação da primeira gravura. D. Beatriz achou que era indecente um grupo de homem abraçado com tantas mulheres. Além disso , não lhe parecia próprios dous quadros fúnebres em dia de festa. José Lemos, que tinha sido membro de uma sociedade literária, quando era rapaz, respondeu triunfantemente que os dous quadros eram históricos, e que a história está bem em todas as famílias. Podia acrescentar que nem todas famílias estão bem na história; mas este trocadilho era mais lúgubre que os quadros."                                   
  Além destas, outras referencias aparecem ao longo do conto realçando ainda mais a força da ironia do escritor. 

EDITORA GLOBO, 154 páginas

  Para completar a graça desta história, Machado estava implacavelmente inspirado quando bolou a descrição das personagens. José Lemos e D. Beatriz formam um casal estranho que colocou no mundo duas filhas ligeiramente sonsas e dois filhos, irmãos sobretudo na preguiça e na gulodice. 

  O noivo que demora pra chegar, o convidado com cabeça de jaca, o outro com artificial ar gravíssimo, os que só pensam na hora do jantar, são o retrato de um grupo sem real consideração pelo evento das bodas e que só pensa na própria imagem e satisfação.

  Dei muitas e boas risadas...


Um beijo e ótimas leituras.