Palavras...

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domingo, 30 de julho de 2017

Não é resenha, é experiência: SÉRIE NAPOLITANA de Elena Ferrante.

"Eu, não, nunca usei nem o primeiro nem o segundo nome. Há quase sessenta anos, para mim ela é Lila. Se a chamasse de Lina ou de Raffaella, assim de repente, ela acharia que nossa amizade acabou." 



Os quatro volumes da SÉRIE NAPOLITANA voaram em minhas mãos a partir do momento em comecei a ler as primeiras linhas de cada um deles. 

Não os li de uma sentada, porém. 

Pra vocês terem uma ideia, entre a leitura do primeiro  e segundo volumes, houve um hiato de treze meses. 

É bem verdade que estes espaços temporais foram  sendo reduzidos: entre o término do segundo e o início do terceiro foram só seis meses; entre o término do terceiro e a conclusão o do último volume foram quinze dias. 

Quin-ze-di-as...

Fiquei muito fissurada nos momentos finais!!!

331 páginas. Lido em Nov./2015.


471 páginas. Lido em Dez./2016.

415 páginas. Lido em Jun./2017.

476 páginas. Lido em Jul./2017.

Os livros são publicados pela Editora Globo, sob o selo BIBLIOTECA AZUL.

A série é narrada por Elena Greco que conta a história de sua vida e de sua melhor amiga, Rafaella Cerullo. O cenário é Nápoles e arredores e o tempo vai desde o pós Segunda Guerra até o início dos anos 2000.

Para mim foram 1.693 páginas das mais diversas emoções. Entretanto, no final das contas, o que me manteve envolvida, durante e após as leituras, foi o sentimento de profunda empatia que desenvolvi por Lila e Lenu. 

Já que sou daquelas leitoras que não conseguem se distanciar do que lêem, a cada situação eu fica penalizada, angustiada, raras vezes feliz, e ao final, devastada pela duríssima realidade apresentada...

Ter uma inteligência muito acima da média e não poder se educar, poder se educar e se sentir sempre a um passo atrás, sofrer violência física, moral e emocional e não ter ninguém para lhe defender, ser aprisionada pela maternidade em uma sociedade em que tudo é exigido deste papel, esperar para os filhos uma vida melhor e não ter a certeza do resultado... foram temas que mexeram muito com meu pobre coração.  

Não tenho como avaliar qual dos quatro volumes mais gostei, pois os li como uma obra única, e por isso mesmo avalio a SÉRIE NAPOLITANA, por inteiro, como um grande livro. Pode ser que haja uma falha literária aqui e ali, contudo, para mim, o texto de Ferrante fez o que eu sempre espero do trabalho de um grande artista; me marcou para o resto da vida.


Elena Ferrante me deixou de pernas bambas...

Um beijo e ótimas leituras.

quinta-feira, 29 de junho de 2017

A LINGUAGEM DO AMOR de Lola Salgado.

Ah o Amor...

Amazon (em e-book para KINDLE), 9163 KB / 660 páginas

"Aos 17 anos, a única coisa que realmente importa para Rebecca é se formar com louvor na faculdade de Letras para, no futuro, realizar o sonho de trabalhar em uma grande editora, perto de todos os livros de fantasia incríveis com os quais cresceu. Morando em uma nova cidade e longe da proteção dos avós, por quem foi criada, ela lutará para não seguir os passos errantes da mãe. Estaria tudo dentro dos conformes se não fosse os murmurinhos percorrendo os corredores da universidade: Adônis, o novo professor de Produção Textual, é um verdadeiro carrasco. Rude, solitário e mal-humorado, ele tenta, na verdade, fugir dos fantasmas do passado."


  Senhoras e Senhores, alguém tem alguma dúvida de que
Rebecca e Adônis terminarão juntos? 

  Pois é... 

  Dúvida ZERO! 

  Mas ouso dizer que isto não tem importância (ou tem pouquíssima) pois A LINGUAGEM DO AMOR é uma história basicamente esteada em personagens, e são elas, muito mais que o enredo, as responsáveis por nos manter ligados ao livro do começo ao fim. 

  É bem verdade que algumas situações podem parecer um pouco arrastadas ou repetitivas, contudo, de modo geral, a história anda bem e os diálogos soam naturais e dinâmicos. O casal de protagonista tem uma boa química e o elenco de apoio é divertido.

  Ah! E é reconfortante saber que amores e arrebatamentos românticos ainda são possíveis, mesmo em um cenário livre de milionários, carros de luxo e afins. 

  A jovem autora é dona de uma escrita fluida, bem conectada e, na minha opinião, qualquer pessoa que consiga manter um mínimo de nexo causal por mais de 600 páginas é digna de nota. Merece meu respeito. 

  Mas, se um conselho é permitido, eu diria para ela evitar, em obras futuras, o excesso de citações e expressões do tipo "Pelas flechas de Fulana...", ou "Pelo anel de Sicrano...". Vejam bem, não são coisas fundamentalmente erradas, porém destoam pelo uso em demasia. 

  No mais, acredito que Lola Salgado tem potencial e, obviamente, a energia necessária para continuar produzindo e aprimorando seu texto. 


  - Well done!



Um beijo e ótimas leituras.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Eu recomendo: A FILHA PERDIDA de Elena Ferrante

"Eu queria está pronta para lidar com os pedidos repentinos de ajuda, temia que me acusassem de ser como eu de fato era: distraída ou ausente, absorta em mim mesma." 

Intrínseca, 174 páginas
   
   Leda é uma professora universitária de 48 anos. Quando suas duas filhas, já adultas, resolvem se mudar para morar com o pai no Canadá ela sente uma estranha leveza. 


"Senti-me milagrosamente desvinculada, como se um trabalho difícil, enfim concluído, não fosse mais um peso sobre os meus ombros."

   Chegam as férias de verão e ela resolve viajar ao litoral do sul da Itália para - por assim dizer - recarregar as baterias e preparar as aulas do novo semestre. Em suas visitas diárias à praia, Leda começa a prestar atenção em uma barulhenta família napolitana. Duas figuras em especial, uma jovem mãe e sua filhinha, a deixam tão impressionada que a observação começa a tomar contornos obsessivos. 

"Um dia levantei os olhos e as vi pela primeira vez: a mulher extremamente jovem e a menina. Estavam voltando do mar em direção do guarda-sol; ela, com não mais do que vinte anos, a cabeça baixa, e a garotinha, de três ou quatro anos, fitando-a de baixo, encantada, enquanto segurava uma boneca da mesma maneira que uma mãe carrega uma criança de colo."

  É a partir daí que a protagonista (também narradora da história) relembra seu passado, revelando, pouco a pouco, nuances profundas de sua natureza. Leda é uma pessoa difícil, portanto uma personagem fascinante, e Elena Ferrante uma escritora primorosa, que cativa nossa atenção desde as primeiras linhas.

Um beijo e ótimas leituras.

sábado, 3 de junho de 2017

Música: JUNHO de Alceu Valença

Pois o mês começou doido, gris e bolorento... mas vai melhorar.





JUNHO

Eu sei que é junho, o doido e gris seteiro
Com seu capuz escuro e bolorento
As setas que passaram com o vento
Zunindo pela noite, no telheiro

Eu sei que é junho!

Eu sei que é junho, esse relógio lento
Esse punhal de lesma, esse ponteiro,
Esse morcego em volta do candeeiro
E o chumbo de um velho pensamento

Eu sei que é junho, o barro dessas horas
O berro desses céus, ai, de anti-auroras
E essas cisternas, sombra, cinza, sul

E esses aquários fundos, cristalinos
Onde vão se afogar mudos meninos
Entre peixinhos de geleia azul.


Alceu Valença


terça-feira, 16 de maio de 2017

Poema: ALMA ERRADA de Mario Quitana.

Tem coisa que só a poesia expressa...





    ALMA ERRADA

Há coisas que a minha alma, já tão mortificada, não admite:
assistir novelas de TV
ouvir música Pop
um filme apenas de corridas de automóvel
uma corrida de automóvel num filme
um livro de páginas ligadas
porque, sendo bom, a gente abre sofregamente a dedo:
espátulas não há... e quem é que hoje faz questão de virgindades...
E quando minha alma estraçalhada a todo instante pelos telefones
fugir desesperada
me deixará aqui,
ouvindo o que todos ouvem, bebendo o que todos bebem,
comendo o que todos comem.
A estes, a falta de alma não incomoda. 
(Desconfio até que minha pobre alma fora destinada ao habitante de outro mundo).
E ligarei o rádio a todo o volume,
gritarei como um possesso nas partidas de futebol,
seguirei, irresistivelmente, o desfilar das grandes paradas do Exército.
E apenas sentirei, uma vez que outra,
a vaga nostalgia de não sei que mundo perdido...

Mario Quintana